Coisa boa acordar com o seu texto.
Fico ansiosa de ler, as vezes gosto de esquecer que voce já respondeu, é bom guardar algo e depois encontra-lo de "surpresa".
Essa técnica eu sempre usava e sigo usando, quando gosto de algo, um livro, um chocolate, uma pessoa, um filme, finjo que nao posso ter. Fazer isso com uma pessoa é mais dificil, mas é muito gostoso também. Voce guarda as lembrancas lá no fundo, detrás de outros pensamentos cotidianos, voce pode guardar detrás de alguns problemas, das suas dúvidas, existe bastante espaco para meter uma pessoa escondida dentro da cabeca. Eu faco isso com muitos amigos, gosto de fingir que nunca os conheci, que nunca passei tanta coisa com eles. As vezes os meto dentro de outras histórias, crio certos labirintos, invento também que estou ocupada, para que a saudade seja outro instrumento que fortaleca o esquecimento. Sao técnicas, sao técnicas para aumentar a surpresa de encontra-los, aumentar o carinho e a sensacao de admiracao.
a chuva aumentou
A mesma coisa eu faco com os livros e chocolates ou qualquer coisa que tenho e que me gera muito prazer. Nao é dificil esconder, basta encontrar um lugar que seja de dificil acesso, sem ser impossível de achar. A surpresa de encontrar é tao intensa, sabe depois li aquele Conto da Clarice, aquele que a menina pede emprestado um livro, nossa minha memória anda esquecida, mas nao de proposito. Lembra desse conto? Nesse conto a protagonista tambem esconde o livro e de "surpresa" o encontra. Eu fiquei mais fa da Clarice depois que li esse conto, é isso que faz a literatura e a arte ser tao extraordinária, Bom, talvez nao, mas é sensacional como o artista pode traduzir algo que as vezes nao sabemos como, mas que nos passa a todos. Algo que nos desenha humanos.
barulho de chuva no telhado, gotas longas, espacadas
Me perdi, era outra coisa que queria contar, queria te dizer que voce tem que colocar mais água nesse manjericao, manjericao gosta de umidade e solzinho. Somos duas que nao entendemos nada de plantas, apesar de gostar, mas isso a gente pode ajeitar com o tempo.
A morte do cinegrafista, eu gostaria de escrever algo com esse título, talvez nao estaria relacionado com a historia real que voce relatou. Me senti mal, nao sei como explicar, parece que algo se reativou dentro de mim, faz tempo que nao leio nada do Brasil, estou na campanha de esquecimento da realidade brasileira, percebi que isso funciona para que eu possa me concentrar mais na vida chilena e nos meus projetos aqui. É fácil fazer isso, nao entro no site da uol nem que paguem. Bom, voltando ao assunto do cinegrafista, digo que o seu relato me provocou algo que estava adormecido, um medo que eu sentia, medo que se assemelhava a um panico quando eu lia ou via tais noticias. Eu tambem gostava de ignorar essa realidade, me sentia cumplice, sempre me senti.
Nao sei o que comentar, nao vou comentar mais nada, me dá medo, me dá aflicao. A morte ainda me persegue, historias estranhas aconteceram por aqui, eu ainda sonho com a minha avo, sonho sempre com dois momentos: quando caminho pelo corredor até a UTI sabendo que ela já está morta e quando tive que vesti-la. As vezes as lembrancas me acometem quando abro os olhos, naqueles minutos de despertar, tenho a sensacao que uma agua escorre dentro de mim, uma agua parada, está ficando podre. Nao consigo me livrar. Além disso, agora vivo numa rua que tem um cemiterio no fundo, no dia dos mortos eu caminhei até lá e vi que é um cemiterio bem simples, nao tive medo, mas refleti muito como a morte está tao cerca.
os passarinhos cantam em meio a chuva
Há outras historias que se cruzaram, no final de semana, que nos mudamos, um gato se meteu no jardim da casa e morreu ali. Tentamos tira-los de todas as formas, mas o bicho nao se movia, parecia que estava envenenado, depois chegamos a conclusao que o gato morreu num lugar que se sentiu comodo, abrigado. Talvez a gente tambem morre onde se sinta comodo, quando se pode "escolher". No caso do cinegrafista é também um lugar onde ele se sentia bem, quero dizer, onde ele exercia a sua profissao, um contexto onde ele se movia com bastante facilidade.
Além da morte do gato, depois vi dois cachorros atropelados, um me deu tanta comocao, era negro, grande e morreu no asfalto da avenida, aqui na esquina. Ele tinha uma poca de sangue envolvendo o corpo, era uma pintura, tinha algo de pesadelo com suavidade, uma textura. Eu fiquei parada, a água que tenho dentro de mim, comecou a se mover. Movia-se com tanta velocidade que meu estomago nao aguentou, sai correndo e vomitei. Era um cachorro negro, creio que um pastor alemao, envolto em vermelho, eu queria ter controlado a água para buscar a camera e tirar uma foto, nao consegui, nao tive sangue para represar a tal água, porque todo o meu sangue estava ali envolvendo o cachorro morto.
parou de chover e eu preciso ir até conce
O outro cachorro era um pequeno, bem pequeno, tambem foi atropelado e esse nao tive coragem de encara-lo, era muito pequeno, como um bebezinho e a minha água também comecou a saltar.
Está muito tenso?
Nao sei se tenso, mas é real, claro que meus disturbios liquidos sao ridiculos, mas te conto que tambem sao um fato a ser narrado.
Já me deu uma certa preguica de seguir com as historias de morte, talvez eu te conte um dia que a neta da minha vizinha tambem morreu, tinha 8 meses e morreu, minha avo morreu com 80 anos. Eu fui no velorio, uns minutos, aqui a tradicao ainda é velar dentro de casa, foi tao estranho, era um bebezinho dentro do caixao, um bebezinho gordinho. A menina morava aqui do lado tambem, eu nao a conhecia, mas fiquei pensando sobre o 8.
México, eu conheci o dia dos Mortos, incrivel, fascinante, eles sim sabem lidar com a morte, sabem celebrar, sabem cruzar os ciclos, fechar as arestas.
Sigo depois, tenho tanto que fazer hoje, mas me encanta te escrever.
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