Fiquei sem internet, quatro dias, no começo a gente pensa que vai morrer. Depois arruma outros afazeres. Queria te escrever, entrar no hondonadas, cultivar a saudade. Ontem quando voltou o sinal eu tive que me condicionar a entrar, é bom sentir que perdemos o costume.
Ocorreram coisas estranhas por aqui, ouvi vozes durante a noite que me chamavam, fortes e bem retumbantes, sonhei com brigas, brigas por minha culpa, sonhei que cortavam as pernas de alguém que amo muito. Fiquei estarrecida, desesperada, no sonho também me faltava dinheiro para pagar o hospital. Não era possível costurar os membros, eu sustentava as pernas nas maos e dos meus olhos escorria sangue como se fosse água.
Voce sabe que o hospital saiu em R$ 44.000? Eles ainda me chamam, tentam me encontrar, mas por recomendacao da advogada nao iremos pagar. É muito dinheiro, aqui se pode comprar uma casa. Cobram por tudo, por cada coisa usada, até pelo banheiro das visitas. A conta é tao grande que parece uma poesia épica.
Seus sonhos, meus sonhos, a gente encontra respostas racionais para o mundo que se forma inconsciente. Eu procuro não encontrar nada, tudo late com tanta latência que me apetece o silencio. Fui feita para amar, fui feita para transmitir choques elétricos. Eu sou uma boa fonte de condução eletrica, pés e mãos frias.
Abuelas, abuelitas...
Avós, eu tive sempre amor e odio pela minha. A comida dela era fantástica, gostava de um macarrao que ela fazia com hortelã, tinha um nome bem particular, coisa dos italianos sulistas que chegaram ao Bom Retiro. Gostava do doce que ela chamava de "cepola", eu queria encontrar a receita, era para o Natal, a gente cobria com mel ou geleia, era uma delicia. Ela se juntava com as irmas e faziam latas e latas de "cepola".
Me deu uma vontade de ver o filme, andar de bicicleta...
Aqui os dias estão longos, o sol sai cedinho e a noite só chega lá pelas dez.
As plantas crescem a todo vapor, plantamos tomates e pimentas.
Nao saiu o resultado ainda,
na espera.
Lendo e relendo Hilst.
Esperando que meu irmao venha para cá!
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