Essa noite ocorreram dois tremores, um bem forte, parecia o movimento de um barco, eu fiquei enjoada e com um medo descomunal, me senti cruzando o pacifico em rumo ao Japao. Antes dos tremores sempre se escuta um ruído forte, como se a terra estivesse caminhando com dificuldade.
É uma experiencia unica, ninguém acreditaria, realmente nao estamos acostumados, nao estamos, eles tem um sentido para os tremores, já pressentem um pouco antes de acontecer. Eu acordei antes de acontecer o segundo tremor, chamei o Pocho quase chorando, porque o segundo foi diferente, foi como uma trombada, parecia que um onibus tinha batido na casa, foi rápido, nao deu tempo para gritar, mas fiquei atenta a noite toda, dormi mal.
Penso que o bebezinho vai adquirir esse sentido, nao vai sentir medo como eu ainda sinto. Dizem que vem um terremoto por aí, o Gonzalo me explicou, é o primo do Sérgio que estuda geofisica, ele disse que desde o último terremoto as placas nao se assentaram, estao fora do lugar, ou seja, é preciso um novo movimento para acomoda-las.
Tento nao pensar nisso, mas é preciso, preparar os nervos mais que nada, porque nao há muito o que fazer. Tenho sentimentos contraditorios em relacao aos tremores, eu gosto de perceber, de sentir, mas também me dá um medo pela falta de experiencia, é algo novo. Gosto da sensacao de pensar que a terra está viva e que nao temos controle efetivo sobre isso.
Eu te levaria para tomar uma cerveja em alguma praia hoje, faz um verao brasileiro aqui, um verao brasileiro, mas sem indicios de chuva no céu, as plantas pedem agua, muita agua e a gente também. Eu gosto dessa sensacao de sede inevitavel. Estou bem cansada, me deu a louca, arrumei a casa inteira, limpei tudo, troquei de lugar os moveis, arrumei o quarto-estudio. Visitas apareceram, um casal amigo do Pocho, conversamos, tomamos coca-cola, tudo bem familiar. Daqui a pouco chega a Sandra com o marido, é uma mulher incrivel, muito inteligente, acho que voce gostaria de conhece-la, tem uma beleza bem chilena, mistura de indigena com branco. Gosto dessa beleza misturada de racas como o hibrido, nos na América Latina somos esse hibrido de culturas, de povos e ideias.
Gosto mais do Chile agora, talvez seja a gravidez, é o país do meu filho. Sou apaixonada pelas cores que se intensificam no céu quando o sol se esconde. As vezes as gaivotas se perdem e chegam até aqui, voam baixo cantando forte, dizem que elas seguem o curso do rio com a brisa marinha.
Passamos a tarde conversando, a Sandra é realmente uma companhia agradável.
Gostei de saber das suas noticias,
logo nos encontraremos,
se cuida!
1 comentários:
Olá Aninha;
Você deveria escrever mais e sempre.
Adoro o jeito como você descreve as coisas.
Acredito que isso seja o tal do talento, essa forma iluminada, sincera e colorida de dizer coisas simples que acontecem no cotidiano.
É sem frescuras, sem intelectualismos, mas, ainda assim de muito bom gosto.
Tenho certeza de que se você procurar direitinho dentro de você vai encontrar uma romancista que você talvez nem sonhe em conhecer.
Diria que você tem talento, mas a genética ajuda um bocado.
Beijo;
Jairo
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